Em minha rua temos uma vizinha que sofreu um AVC (acidente vascular cerebral), ficando assim com sequelas: incapacitada de caminhar, de comer sozinha ou mesmo de falar.
Fiquei chocada quando soube que ela permanece em casa sozinha, pois a filha mora longe e não vem visitá-la. O que a filha fez foi contratar outra vizinha para atendê-la da melhor forma possível. Isso porque essa pessoa que foi contratada não é cuidadora, não tem experiência no assunto nem foi preparada para exercer esse serviço.
Então tudo o que está sendo feito é que algumas vezes por dia alguém vai nessa casa para dar comida, trocar fraldas e coisas do tipo. Não me perguntem com que frequência essa doente recebe banho, por exemplo.
O fato que me chamou a atenção e que a vizinhança toda se pergunta é:
Como pode uma filha fazer isso com a própria mãe?
E isso tem gerado um alvoroço na vizinhança. Ouço algumas pessoas levantando a questão: que tipo de mãe ela foi para essa filha para receber esse tipo de tratamento (neste caso a falta dele).
Então hoje lembrei de Françoise Dolto (psicanalista francesa).
Dolto nos lembra que (vou dizer com minhas palavras na forma que me lembro):
“se a criança ao invés de receber carinho receber autoritarismo, o que ela vai sentir não é amor, mas medo”
Com muita frequência vejo crianças com medo dos pais. Crianças que obedecem por medo do castigo, retraídas pelos xingamentos, com baixa autoestima pela forma depreciativa com que foram tratadas.
A questão é que não dá para saber como alguém vai reagir com a forma que é tratada, mas é fato que nos fazemos através da convivência que temos com a família.
Todos os dias ouço pais gritando com filhos, ameaçando em tom de voz elevado; e penso no dia em que essas crianças forem embora.
Boa parte dessas crianças, quando crescerem, vão levantar voo e ir para mais longe possível.
Então não sabemos que tipos de pais e mães temos quando olhamos pessoas abandonadas.
Crianças crescem. E crianças seguem o exemplo do que veem.
As crianças se orientam pelas atitudes dos pais e cuidadores e não por suas falas. Falar não basta. Gritar prejudica (quem grita demonstra que não tem autoridade e tenta impor a vontade de forma tirânica).
Crianças crescem vendo as atitudes. Atitudes equilibradas e de bom senso contribuem para a boa formação infantil. Atitudes desequilibradas prejudicam a formação da criança.
Atitudes tirânicas onde as emoções da criança não são levadas em consideração geram transtornos nos relacionamentos familiares, e mais tarde a criança pode querer ficar o mais longe possível da família, não importando o que aconteça com os familiares. Isso é mais verdadeiro se a pessoa não elaborar em análise suas questões; então o afastamento é uma defesa do ego para não sofrer novamente.
As alternativas são muitas e cada caso é um caso e deve ser analisado em separado e com cuidado.
Fica então o convite para pensarmos no assunto pela perspectiva da psicanálise: crianças são sujeitos em aprendizado; e não pessoas pequenas que não sabem o que querem. São sujeitos muito atentos, astutos, observadores.
E precisam de nosso respeito.


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